LinguagensENEM 2016Nível 3
Sem acessórios nem som
Escrever só para me livrar
de escrever.
Escrever sem ver, com riscos
sentindo falta dos acompanhamentos
com as mesmas lesmas
e figuras sem força de expressão.
Mas tudo desafina:
o pensamento pesa
tanto quanto o corpo
enquanto corto os conectivos
corto as palavras rentes
com tesoura de jardim
cega e bruta
com facão de mato.
Mas a marca deste corte
tem que ficar
nas palavras que sobraram.
Qualquer coisa do que desapareceu
continuou nas margens, nos talos
no atalho aberto a talhe de foice
no caminho de rato.
FREITAS FILHO, A. Máquina de escrever: poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.
Nesse texto, a reflexão sobre o processo criativo aponta para uma concepção de atividade poética que põe em evidência o(a)
Fonte: ENEM 2016 · questão 123 · INEP.
Aangustiante necessidade de produção, presente em "Escrever só para me livrar/ de escrever".
Bimprevisível percurso da composição, presente em "no atalho aberto a talhe de foice/ no caminho de rato".
Cagressivo trabalho de supressão, presente em "corto as palavras rentes/ com tesoura de jardim/ cega e bruta".✓ correta
Dinevitável frustração diante do poema, presente em "Mas tudo desafina:/ o pensamento pesa/ tanto quanto o corpo".
Econflituosa relação com a inspiração, presente em "sentindo falta dos acompanhamentos/ e figuras sem força de expressão".
Resposta correta: alternativa C
💡 Explicação
O poema é um poema sobre o próprio ato de escrever (metalinguagem), e o que ele destaca é o trabalho de cortar, enxugar o texto: o eu lírico diz que corta conectivos e palavras "com tesoura de jardim / cega e bruta" e "com facão de mato" — instrumentos agressivos, quase violentos. Ou seja, criar poesia aqui é sobretudo suprimir, e a marca desse corte deve ficar visível nas palavras que sobraram. As outras alternativas citam versos reais do poema, mas nenhum deles resume a concepção central de criação apresentada, que é a poda radical do texto.Questão enviada por Marcelo Merreles ao banco público do Canetinha.