Ciências HumanasENEM 2023Nível 3
No cemitério, a sociedade religiosa encarregada do funeral, aterrorizada, apressou a cerimônia de tal forma que a mãe de Herzog perdeu o momento em que o caixão do filho começou a ser coberto pela terra. Quatro jornalistas que estavam presos no DOI chegaram para assistir ao sepultamento. Um se afastara, chorando. Dizia: Eles matam, eles matam! Não pergunte nada. Não podemos dizer nada. Eles matam mesmo. Falava-se baixo. Ouviram-se dois curtos discursos. O primeiro, da atriz Ruth Escobar: Até quando vamos suportar tanta violência? Até quando vamos continuar enterrando nossos mortos em silêncio? No segundo, Audálio Dantas recitou o Navio negreiro, de Castro Alves: Senhor Deus dos desgraçados / Dizei-me Vós, Senhor Deus / Se é mentira, se é verdade, / Tanto horror perante os céus.
GASPARI, E. A ditadura encurralada. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.
O acontecimento descrito no texto, ocorrido em meados dos anos 1970, atesta a seguinte característica do regime político-institucional vigente:
Fonte: ENEM 2023 · questão 70 · INEP.
AIncorporação da estética popular para justificar o ideal de integração nacional.
BAfirmação da estratégia psicossocial para favorecer o objetivo de propaganda cívica.
CInstitucionalização de mecanismos repressivos para eliminar os focos de resistência.✓ correta
DAdoção de cerimoniais públicos para controlar as manifestações de grupos opositores.
EEstatização de meios de comunicação para selecionar a divulgação de atos governamentais.
Resposta correta: alternativa C
💡 Explicação
O jornalista Vladimir Herzog foi morto em 1975 nas dependências do DOI-Codi, órgão oficial de repressão da ditadura militar — e o texto mostra jornalistas presos, medo generalizado ('não podemos dizer nada') e um enterro apressado pelo terror. Isso comprova que a repressão não era um desvio isolado, mas estava institucionalizada: o próprio Estado mantinha estruturas (DOI, prisões políticas, tortura) para eliminar quem era visto como resistência ao regime. As demais alternativas falam de propaganda, estética popular ou estatização da mídia, temas que não aparecem na cena descrita.Questão enviada por Marcelo Merreles ao banco público do Canetinha.